A gota penetra na terra.
O meu corpo torna-se frio. A minha cara empalidece-se e a respiração sustém-se. Deixo de sentir... de me sentir. A tristeza e a solidão anteriormente sentidas e agora livres de mim e por tudo o resto esquecidas, espalham-se por toda a terra e relembram-me nos quatro cantos do mundo.
Começa a chover. O tal corpo frio, arroxeado e agora enxarcado, volta à sua origem, à mãe natureza... porque ninguém vai sentir a sua falta. Porque o que habitava aquele corpo, todos os sentimentos e todo o amor nunca interessaram verdadeiramente e ninguém.
As brisas transformaram-se em vento, e a gota deixada no mundo mistura-se com as gotas imponentes da chuva e caí mais uma vez no esquecimento de todos e de ninguém.
Um trovão. Anuncia-se o fim.
Barulho impiedoso que transporta todas as dores leva também um último desejo de compreensão.
Um par de trovões. Acabou.
Helena Miranda

